May 20 2008
Homenagem a Paulo Autran
Paulo Autran é para sempre um deus que dormiu lá em casa. E ele foi muitos outros personagens. Deu-nos tantos outros personagens, tantas dores e tanto riso. Nós o vimos representar e através da piedade e do medo sua representação nos purificou.
Quando descia a cortina no final do espetáculo estávamos com emoções purgadas porque ele havia dito durante duas horas que ele era quem ele não era. E encarnando alguém que podia ser um de nós na platéia, nos fazia vivenciar aquilo que temíamos ou queríamos para nós.
Os gregos chamavam o ator de hipócrita, aquele que responde como se fosse realmente personagem imaginada pelo autor. O ator nos libera porque diz o que tememos. Na personagem da tragédia ele é um ser superior àquilo que são os homens. Sem culpa ele perde a medida e os deuses o castigam primeiro com a loucura e depois – em geral - com a morte.
E na comédia ele é um ser mais simples do que somos e o desenlace da ação teatral é feliz e nos provoca o riso. Portanto toda essa existência do ator no palco é dedicada à representação de uma vida verdadeira e exemplar para que meçamos nossas dimensões, o nosso possível, a tragédia ou a comédia de nossas vidas.
A primeira atuação teatral profissional de Paulo Autran foi em Um deus dormiu lá em casa. Hoje, com a liberdade que sua carreira lhe deu ele pode com um sorriso assumir o Avarento de Moliére. A maturidade é a melhor liberdade e no Avarento ele pode manifestá-la. É preciso ir ver esse deus que dormiu lá em casa em sua gentil, autorizada maturidade no exercício dessa atividade divina que é o teatro, porque foi o teatro que gerou a religião.
A ação do ator é a realização da vida verdadeira. Ir ver Paulo Autran será contemplar um horizonte percorrido por poucos e realizado com graça e cultura.
Fotomontagem sobre arquivo: Iza Calbo
Por Cyro Del Nero

